Intercâmbios: as vantagens educacionais, científicas e culturais sob a ótica das experiências de um estudante

Intercâmbios: as vantagens educacionais, científicas e culturais sob a ótica das experiências de um estudante

Sua próxima viagem está mais perto do que você imagina - prepare-se para embarcar! Você, estudante dedicado e sonhador, já deve ter se pegado pensando, assim como eu já fizera em diversas ocasiões: “E se eu fizesse um intercâmbio?”. Bem, a boa notícia é que não estamos sozinhos! Aliás, longe disso. Segundo a “Associação Brasileira de Agências de Intercâmbio (Belta)”, pouco mais de 455 mil estudantes brasileiros participaram de programas de intercâmbio em 2022 (Figura 1), o que representa um aumento de cerca de 18% em relação ao nebuloso período pré-pandemia (FONTE: CNN Brasil). Por sinal, se a COVID-19 trouxe algum benefício, com certeza um deles foi deixar a ciência ainda mais em evidência - basta ver, por exemplo, o impressionante (e empolgante) avanço das vacinas de mRNA, tanto em termos de velocidade, quanto de modernismo! Consequentemente, os números não mentem, conforme discriminado no gráfico de barras abaixo, mostrando os destinos mais populares entre os estudantes brasileiros.

Fig1
Figura 1: Gráfico de barras mostrando os principais destinos escolhidos pelos estudantes brasileiros que desejam realizar um intercâmbio. Tradição, excelência acadêmica, qualidade de vida, segurança, oportunidades educacionais e experiências culturais são os principais motivos para a escolha dos países mostrados na figura.

SUMÁRIO

A viagem (acadêmica) dos sonhos: você está pronto?

Imagine que você está planejando a viagem dos seus sonhos (Figura 2). Diversas dúvidas vem à cabeça: Para onde vou? Com quem vou? Quais lugares visitaria? Em que hotel vou ficar? O que vou comer? Quanto dinheiro preciso levar? Quais documentos preciso arrumar? Entre muitas outras. Escolher a hospedagem, estudar sobre a cultura local, calcular os custos, separar a documentação e preparar um roteiro são indiscutivelmente partes essenciais do seu planejamento. Agora, e se eu te disser que uma viagem de intercâmbio acadêmico se assemelha bastante a isso? A única - e provavelmente a principal - diferença é que, ao invés de “apenas” explorar novas paisagens, você se tornará o personagem principal do cenário! Estudando, pesquisando, aprendendo e vivendo o dia a dia em um novo país.

Estudar e trabalhar no exterior, como por exemplo em Portugal ou nos EUA, certamente será uma experiência única na sua vida e que lhe trará muitos ganhos, não apenas no âmbito profissional, como também uma jornada marcante em termos pessoais! E, pelo visto, muitos estudantes têm tomado essa decisão. Em Portugal, por exemplo, os brasileiros já somam 26% dos universitários estrangeiros (FONTE: Consultor Jurídico). Você, como bom cientista, pode achar que esse número é apenas devido ao fácil acesso da língua, já que ambos falam português. Então vamos para um país cuja língua materna seja a inglesa, como os EUA. Em 2023, nosso país registrou mais de 16 mil alunos matriculados em cursos de graduação e pós-graduação, totalizando, à época, pouco mais de 40 mil no total, com um aumento de 10% em relação ao ano anterior (FONTE: Gazeta Brazilian News). Para se ter uma ideia, pasmem, esse número é quase o do país vizinho, o Canadá, o qual possui pouco mais de 43 mil matrículas. Estudar inglês tem se tornado cada vez mais popular (haja visto os números) e essencial na vida de qualquer brasileiro, mas se por algum motivo você ainda não aprendeu, nunca é tarde para começar (se você não concorda, continue lendo para você entender melhor o que quero dizer)! Saiba que você terá que fazer algum teste que prove sua proficiência na língua, como o TOEFL para o inglês, o qual merece um post separado em uma outra oportunidade.

Mas a aventura começa no Brasil, como acabei de dizer. Primeiramente, é essencial que você se sinta preparado, afinal, sua rotina mudará bastante. Veja, dificilmente você irá se sentir 100% pronto, por isso é importante que você tenha a necessária maturidade suficiente para dar esse importante passo. Ter o apoio estrutural e psicológico de sua família e/ou chefe - a depender da fase da sua carreira - torna-se bem importante. Com isso, você precisa ter bem claro em sua mente quais são suas metas com a viagem, pois isso vai definir absolutamente todas as etapas seguintes. Eu diria que esse é um daqueles grandes marcos de todo o processo (spoiler: idealmente, tente decidir com aproximadamente 1 ano de antecedência)! A partir daí as coisas se tornam relativamente mais “automáticas”, mas não se engane! Se fosse uma viagem fácil, a passeio, qualquer um faria, não é mesmo? Mas você não é qualquer um e essa não seria a viagem da sua vida!

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Figura 2: O sonho de estudar no exterior só depende de você!

Documentação e vistos: o que você precisa saber

Certo, você agora já tem tudo o que precisa: apoio - porque ninguém consegue tudo sozinho - e metas, com antecedência. Agora você precisa se atentar às normas do edital que você olhou, das regras que passam a valer a partir do momento que você conseguir a bolsa, entre outros detalhes que estarão devidamente explicados nesses documentos, então não se preocupe. Meu conselho é que você veja, concomitantemente com o lugar onde você quer ir e com qual pesquisador você quer trabalhar, os documentos necessários para poder realizar a viagem. O número de documentos e suas naturezas podem variar bastante de acordo com o tipo de intercâmbio que você pretende realizar, para qual país você irá, entre outras coisas. Portanto, vou te dar aqui algumas dicas gerais em pontos específicos que podem colocar tudo a perder (como eu já vi acontecer mais vezes do que gostaria, infelizmente), pois para algo mais detalhado precisaria de um post separado.

Assumindo que seu passaporte está em dia (se não, faça isso o quanto antes através do site do governo junto à polícia federal!), de cara já lhe aviso que você deve dar uma atenção especial ao visto, no caso de uma ida aos EUA, pois a procura no Brasil é muito grande. No meio do ano passado, por exemplo, a emissão cresceu 35% (FONTE: Panrotas). Felizmente, a grande maioria das emissões são referentes ao visto de turismo e negócios (B1/B2), representando mais de 90% dos casos (para a lista completa de tipos de visto, clique aqui). Posso lhe dizer que para a emissão do visto de estudante (J1, no meu caso e o da maioria, mas pode ser que você precise de um F1) o processo é mais rápido, mas você não pode relaxar muito! Para agilizar o processo e você fazer tudo tranquilo, o primeiro documento que você deve priorizar para não atrasar as outras etapas do visto chama-se DS-2019 (ou o I-20, no caso de visto F1). Esses documentos são emitidos pela instituição de ensino para onde você pretende estudar e, geralmente, demoram um certo tempo para serem emitidos (dica: algumas instituições têm a chamada “RUSH fee”, que essencialmente é uma taxa relativamente acessível a mais que você paga para eles acelerarem a emissão do documento). Por isso comentei acima que você deve começar a ver a documentação ao mesmo tempo que você escolhe para onde quer ir e, como essa decisão não é simples e requer um tempo, a recomendação de se planejar com ao menos 1 ano de antecedência se justifica. Idealmente, diria que seria perfeito se você começasse a se planejar com 1 ano e meio de antecedência. Perfeito, agora que você tem seu passaporte em dia, sabe para onde vai e já pediu para a instituição seu DS-2019, os próximos passos para a emissão do visto são bem simples - contudo, prepare o bolso. Resumidamente:

  1. Preencher o formulário online DS-160, que você já deve ter ouvido falar (obrigatório para qualquer tipo de visto). O “mundo dos vistos” tem um passo a passo bacana para te ajudar;
  2. Pagamento de 2 taxas - ~R$2.100 (conversor de moedas do banco central do Brasil no dia 03/04/2025):
    1. SEVIS (formulário I-901) - ~US$220;
    2. Agendamento no CASV (SP, RJ, RS, PE e DF) - ~US$160.
  3. Visita ao CASV para coleta de foto e biometria;
  4. Entrevista (em Inglês!) no consulado Americano.

No ato do agendamento você escolhe tanto a data do CASV (primeiro) quanto do consulado (segundo), podendo remarcar sem custos adicionais com pelo menos 24 horas de antecedência (veja o site oficial da embaixada para mais detalhes). Após passar na entrevista - você descobre na hora - pode comemorar (agora os vistos de estudante J1 valem até 24 meses com o pagamento de uma taxa extra de US$102)! Agora comece a ver:

  • Passagem aérea (American Airlines, United, LATAM, Delta);
  • Moradia e alimentação (em alguns casos a própria instituição tem planos estudantis que contemplam ambos);
  • Transporte (passes escolares são uma boa saída, mas é possível tirar uma habilitação internacional também);
  • Conta bancária (Bank of America, Wells Fargo, PNC - atenção para as modalidades estudantis, mais em conta);
  • Plano de saúde (obrigatório - as universidades têm departamentos específicos para isso e podem te ajudar);
  • Plano de celular (T-Mobile, Verizon, AT&T);
  • Taxa de câmbio para levar alguns dólares em espécie (acredite, é importante), entre outras burocracias (como pagamento de taxas - equivalente ao nosso imposto de renda).

Nossa Fil, parece incrível mesmo! Mas se for muito complicado, não sei… Nem tenho certeza se vale a pena essa burocracia toda, acho que estou tranquilo por aqui mesmo hein…

Calma e confie no processo. Até o fim desse post vou te convencer e te mostrar que com alegria, planejamento e paciência, vai dar certo!

Minhas experiências com intercâmbios

Dizem que experiência não se compra, se adquire - e intercâmbios são prova disso! Cada viagem trouxe desafios e aprendizados distintos, tanto pessoais quanto profissionais, e tenho certeza que você vai se identificar com algumas, a depender do ponto do processo que você está na sua jornada. Desde a empolgação e o frio na barriga de morar sozinho pela primeira vez até a adaptação (como moradia, alimentação e transporte) a um novo país - facilitada pela presença de outros brasileiros - passando pela burocracia da documentação e o impacto da distância da família, namorada, amigos e cultura. Profissionalmente, os objetivos também evoluíram: de aprimorar o inglês e explorar a Bioinformática na graduação (através das disciplinas e estágio) até conduzir uma pesquisa de qualidade no doutorado em uma instituição de excelência em um laboratório conceituado. Em ambas as experiências, o crescimento foi imenso, e cada etapa contribuiu para aumentar minha rede de contatos (networking), participar de eventos e construir a trajetória que compartilho a seguir.

Como aluno de graduação

Minha primeira experiência internacional aconteceu em 2015, quando fui selecionado pelo programa “Ciência sem Fronteiras (CsF)” para estudar na University of Cincinnati (UC), em Cincinnati, OH, EUA. O curioso é que minha primeira tentativa, no ano anterior, fracassou porque perdi o prazo da prova de proficiência em Inglês. Na época, fiquei frustrado, mas hoje entendo que foi uma bênção disfarçada: nesse intervalo, descobri a Bioinformática, o que acabou moldando toda minha trajetória posterior, fazendo Mestrado e, agora, Doutorado em Bioinformática no laboratório do Dr. Pedro A.F. Galante. Esse revés me ensinou sobre paciência e propósito - Deus (para quem acredita, como eu) “escreve certo por linhas tortas”, já diria o provérbio. Portanto, não desanime se você não conseguir rapidamente atingir seus objetivos (no mundo de hoje, queremos tudo muito rápido, e não é assim que funciona), pois com resiliência, você conseguirá!

Mas engana-se aquele que acha que tudo foi um mar de flores, pois a preparação foi intensa. Como contei anteriormente, meu nível de Inglês não era dos melhores, mas estudei forte por um ano para conseguir a nota mínima do edital no TOEFL iBT (agradecimento especial ao professor Jefferson). Portanto, lembre-se: nunca é tarde para aprender! Nesse período eu estava no bacharelado em Ciências Biológicas da UNIFESP e tinha que manter um bom desempenho sem nenhuma “DP”. O esforço foi recompensado quando a aprovação foi anunciada por email em um belo dia no laboratório da Dra. Ileana G.S. de Rubió, onde fazia IC - na hora liguei para os meus pais para contar a boa nova (dica: trabalhe quieto antes de sair anunciando o que você está fazendo. Assim, você não gera à toa expectativas nas pessoas e não se coloca ainda mais pressão). Com o apoio do próprio programa (em conjunto com o parceiro americano - IIE) para a obtenção do visto, pude viver no campus da UC, em moradia estudantil (com outros brasileiros presentes), com refeições, transporte interno e um ambiente bem estruturado. Logo no início, fiz outro curso intensivo obrigatório de Inglês e aprendi rapidamente o valor da pontualidade (chegar 1 minuto atrasado me custou uma aula!). Como disse antes, viver “na bolha” da universidade teve suas vantagens, mas sua experiência pode (e deve) ir além! E a porta de entrada foi o Seth, um estudante americano que nos proporcionou maior imersão cultural - de quebra, ele virou amigo de vários brasileiros e hoje está casado com uma argentina!

Aos poucos, fui me inserindo cada vez mais em atividades acadêmicas e culturais. Participei de eventos da organização H2O, do voluntariado no “Relay for Life of University of Cincinnati” (da American Cancer Society - ACS), conheci pessoas de vários países e vivi experiências únicas - como um tradicional Thanksgiving (Ação de Graças) com uma família americana (obrigado Christian!). Ou seja, se permita conhecer novas pessoas e ter novas experiências, pois você só tem a ganhar com isso! Ao mesmo tempo, estudei disciplinas exigentes com afinco, como programação (sim, de certo modo, aprendi outra “linguagem” - Java - em outra língua - Inglês - e com um “fun fact”: meu professor, fã de “Senhor dos Anéis”, era o Gandalf em pessoa) e bioquímica (no campus da medicina - o que me permitiu conhecer o incrível professor Dr. Anil G. Menon, que me encorajou muito a seguir na área da pesquisa, até me presenteando com um lindo jaleco!). Inclusive, fiz o que nunca tinha feito em toda a minha vida: virar noites para resolver os desafios de 1 semana, com a ajuda de um estudante vizinho. O modelo de ensino exigia autonomia, e isso me fez crescer muito como estudante e como pessoa. Portanto, “se jogar de cabeça” na sua experiência não tem preço; aproveite cada momento de sua viagem!

No final do intercâmbio, uma feira de profissões (ps: tive que comprar meu traje a rigor às pressas) e uma outra disciplina me ajudaram bastante a criar um perfil efetivo no LinkedIn (veja aqui - obrigado professor Aaron Bradley!) e buscar um estágio em Bioinformática. Recusei uma primeira oportunidade que não atendia esse critério e fiquei sem apoio da outra responsável pela disciplina mencionada. Me desesperei, mas não desisti: encontrei, por conta própria, uma vaga no Cincinnati Children’s Hospital Medical Center (CCHMC), com o Dr. Long (Jason) Lu (Figura 3). Lá, durante 6 meses, aprendi o básico de Linux (bash), Python (“não usamos Java aqui, então aprenda ou Python ou Perl”), análise de enriquecimento e trabalho em grupo em outros projetos. De quebra, tive a oportunidade de conhecer melhor a cultura chinesa, já que a maioria dos colegas de laboratório eram de lá - inclusive morei na casa de um deles no último mês. Esse estágio foi fundamental para a minha formação, e mantenho contato com o Dr. Lu até hoje (inclusive, quase fiz pós-graduação com ele)! Essa experiência me mostrou claramente o poder da convicção; portanto, confie em seus instintos, mas sempre tenha a humildade de ouvir e aprender.

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Figura 3: Um feliz estudante de graduação em seu local de estágio (arquivo pessoal).

Essa vivência foi transformadora em todos os sentidos. Mais do que um intercâmbio acadêmico, foi um mergulho em novas culturas, desafios e descobertas pessoais. Se eu puder deixar um conselho, é este: abrace cada oportunidade, esteja disposto a sair da sua zona de conforto e permita-se viver intensamente tudo o que um intercâmbio pode proporcionar - você não volta a mesma pessoa!

Como pesquisador na pós-graduação

Minha segunda experiência de intercâmbio aconteceu durante o doutorado, entre setembro de 2023 e setembro de 2024, quando fui para San Diego, na Califórnia - que juntamente com Flórida e Nova Iorque são os estados que mais recebem estudantes brasileiros (FONTE: Gazeta Brazilian News). Tive o privilégio de trabalhar no laboratório do Dr. Alysson R. Muotri, na University of California San Diego (UCSD), localizado no “Sanford Consortium for Regenerative Medicine”, através do programa BEPE da FAPESP. O peso acadêmico da instituição e do grupo, somado ao momento mais maduro da minha carreira, fizeram dessa jornada algo ainda mais intenso e transformador. Cheguei focado no projeto, na expansão da minha rede de contatos e consolidação de parcerias científicas, mas também com aquele frio na barriga já conhecido, misturado à dor da despedida dos meus pais, da minha namorada e do nosso cachorro, agora idoso. E aqui há uma reflexão importante: na pós-graduação, o nível de dificuldade, cobrança, demanda, entre outras coisas, é superior; logo, suas expectativas, metas e esforços devem ser condizentes.

Assim como da primeira vez, morar em um lugar como San Diego e não aproveitar o que a cidade oferece, tanto em termos profissionais como pessoais, seria um desperdício, certo? E consegui: tive a oportunidade de participar de eventos institucionais e científicos marcantes, como a “Autism Tree: Global Neurodiversity Conference”, que me fez enxergar com mais empatia a complexidade do autismo, e até conheci a embaixadora do Brasil nos EUA em um evento oficial com importantes representantes do governo. Aliás, logo no primeiro mês tive a real noção do tamanho do grupo e do impacto do trabalho que se fazia ali. No meu primeiro dia, por exemplo, fui surpreendido por uma equipe de TV gravando uma entrevista com o Alysson - e lá estava eu, sem querer, aparecendo na matéria. Pouco depois, assisti ao lançamento de um foguete da NASA com organoides cerebrais desenvolvidos no nosso laboratório; uma experiência simplesmente surreal. Esses encontros e eventos me fizeram perceber o alcance e impacto que a ciência brasileira pode ter, especialmente quando conectada a redes globais de excelência. De quebra, ao longo do ano pude explorar praias, restaurantes e viajar no Natal e ano novo com meus pais e namorada para pontos turísticos de San Diego e da Califórnia, como Los Angeles - uma tradição que repetimos desde a primeira viagem, quando fomos juntos a Chicago e Nova York (Figura 4). Em paralelo a tudo isso, também.

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Figura 4: Um feliz estudante de pós-graduação com sua namorada na “Geisel Library”, ponto turístico da UCSD e de San Diego (arquivo pessoal, modificado com o [chatGPT](https://chatgpt.com/) ao estilo “Studio Ghibli”).

A rotina do laboratório não era diferente: o ritmo também era intenso. Eu era o único bioinformata do grupo, o que significava muitos projetos e demandas chegando de vários lados. Aprendi, na prática, a importância de saber administrar meu tempo e impor limites para focar no que realmente importava e, principalmente, cuidar de mim. Saber equilibrar dedicação e saúde mental, inclusive, virou um mantra desde quando estava no Brasil. Em meio à escrita do projeto BEPE (e a expectativa pela sua aprovação), relatório para a FAPESP, qualificação e outras responsabilidades da pós-graduação, quase adoeci - uma lição importante sobre os perigos de ignorar os próprios limites e, ao mesmo tempo, a importância do apoio familiar. Portanto, é vital ter em mente que, por mais que o intercâmbio seja uma oportunidade incrível, ele não precisa - e nem deve - ser sinônimo de esgotamento.

A adaptação em território Americano também trouxe seus próprios desafios, claro. O fuso horário dificultava a comunicação com minha família e encontrar moradia em San Diego quase se tornou um pesadelo - fui vítima de uma tentativa de golpe (SCAM) ainda no Brasil (dica: não confie em absolutamente tudo que você vê em redes sociais!). Além disso, o laboratório ficava longe da minha casa (o bairro de La Jolla é caro), então precisei aprender a me virar com o transporte público local (passe “PRONTO” - equivalente ao nosso “Bilhete Único” - e apps de horários funcionam bem), além de colocar na conta tarefas diárias como cozinhar e dividir o espaço da casa com colegas. Confesso que foi bem diferente da minha primeira experiência, quando tudo era mais simples, o que exigiu bastante resiliência. Por outro lado, é bom que isso aconteça, pois você verá que durante o intercâmbio você irá se transformar em outra pessoa, mais madura, séria, consciente, responsável e organizada, e isso faz parte da experiência!

No fim, o saldo foi extremamente positivo! Além de avançar no meu projeto, ainda consegui participar de outras colaborações e tive o prazer de participar de diversos eventos científicos que aconteciam não só em San Diego, mas também em outros lugares. Como não mencionar o “Biology of Genomes”, encontro anual que ocorre no “Cold Spring Harbor Laboratory”, em Nova York. Até então eu já tinha ido em diversos congressos científicos, mas nada se compara com esse, não somente por ser internacional, mas pela sua magnitude. O nível das palestras, dos pesquisadores (até mesmo o Svante Pääbo, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina apenas 3 anos antes, em 2022, estava presente - Figura 5), das pesquisas, dos posters, da estrutura, tudo era de uma qualidade que ainda não tinha experimentado. Isso tudo me deixou ainda mais motivado em mostrar meu trabalho (na forma de pôster) para a comunidade, como por exemplo a editora assistente sênior da revista “Genome Research” (a qual conheci no almoço de um dos dias de evento - detalhe: na época eu não sabia quem era ela)! Dividir esses momentos com meu orientador, que também estava lá, foi ainda mais especial - até dividimos um quarto dentro do campus! Essa experiência definitivamente me moldou como cientista e como pessoa - e é isso que torna o intercâmbio na pós-graduação tão valioso: ele te desafia, mas também te transforma, algo que você levará consigo para sempre!

O impacto do intercâmbio: ciência, carreira e vida

Primeira coisa que devo dizer é que o impacto do intercâmbio na sua vida será proporcional a quantidade de energia que você investiu antes e durante a viagem. Ou seja, a boa notícia, novamente, é que o tamanho desse impacto só depende de você! De qualquer modo, pode ter certeza de que fazer um intercâmbio acadêmico é muito mais do que mudar de país - é transformar profundamente a forma como você enxerga a ciência, conduz sua carreira e vive o dia a dia. Tanto na universidade quanto no laboratório, você se vê diante de novas pessoas e tecnologias, metodologias e estrutura de ponta e, talvez o mais impactante, formas diferentes de pensar e resolver problemas. A convivência com alunos e pesquisadores de diversas formações e diferentes culturas amplia muito o seu repertório técnico e de relações interpessoais, te convidando a sair da zona de conforto constantemente. E são justamente nesses momentos de desconforto onde a verdadeira evolução acontece - tanto no plano acadêmico quanto pessoal. Do mesmo modo, a experiência cultural fora do ambiente universitário e laboratorial também enriquece bastante o seu olhar sobre o mundo, sobre o Brasil e sobre você mesmo! Aprender a se virar em outro idioma, lidar com burocracias, construir novas rotinas e criar laços inovadores em um ambiente inicialmente estranho só fortalece sua autonomia, empatia e resiliência. E o mais interessante é que esse crescimento não para quando o intercâmbio termina: ele se desdobra em novas oportunidades profissionais, colaborações científicas duradouras e uma percepção mais madura do seu papel na ciência e na sociedade. Ou seja, os benefícios do intercâmbio são persistentes e duradouros. Em outras palavras, o intercâmbio é uma escola para a vida, que continua ensinando e te moldando por muito tempo depois que você volta. Aqui vai um resumo das 7 principais vantagens, ao meu ver, de se fazer um intercâmbio, pensando no âmbito da ciência, carreira e vida:

  • Amadurecimento pessoal.
  • Aprender uma nova língua e cultura.
  • Acesso a novas tecnologias e metodologias.
  • Networking com professores e pesquisadores renomados.
  • Oportunidades de publicação em revistas de alto impacto.
  • Participação em eventos acadêmicos e culturais.
  • Colaborações internacionais.
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Figura 5: Foto com Svante Pääbo, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2022, durante sessão de pôster, na qual apresentava meu trabalho, no congresso “Biology of Genomes” no CSHL em 2024 (arquivo pessoal).

10 dicas práticas para um intercâmbio bem-sucedido

  1. Organize seu tempo: comece sua jornada com antecedência de pelo menos 1 ano (preferencialmente 1 ano e meio).
  2. Escolha seu destino com cuidado: defina minuciosamente com quem quer trabalhar, em qual laboratório e em qual país/região.
  3. Planejamento financeiro: tenha ciência de quanto você vai gastar, como taxas e custo de vida (dica: reserve uma parte para emergências) → montar uma planilha de gastos ajuda (dá até para gastar com você).
  4. Escolha a moradia com cuidado: morar no campus é mais prático (imersão universitária); porém, morar fora proporciona maior imersão cultural → fique de olho com golpes.
  5. Tenha uma rotina regrada, mas flexível: assim você combina eficiência nos deveres com surpresas agradáveis no lazer e trabalho.
  6. Domine o básico da língua local: estar familiarizado com expressões e hábitos do dia a dia é essencial para facilitar sua adaptação.
  7. Imersão cultural: busque aprender e participar da cultura do país, que lhe trará prazer, conhecimento, e fluência na língua local.
  8. Seja participativo e interessado: participar de eventos e apresentar seu trabalho elevará muito a sua experiência, além do networking.
  9. Tenha claro suas prioridades: saiba ouvir para aprender, mas seja firme em suas convicções para manter o foco → equilíbrio!
  10. Esteja aberto a novas experiências: seja curioso! Desde experimentar comidas típicas até participar de eventos culturais, cada detalhe contribui para você desfrutar mais sua jornada.

Afinal, vale a pena?

Como tudo na vida, um intercâmbio tem seus prós e contras - veja a Tabela 1 abaixo. É um processo que exige planejamento, dedicação e paciência, demandando um alto grau de foco, resiliência e tempo. Por outro lado, os benefícios são inegáveis, e espero que isso tenha ficado claro ao longo da leitura desse post em nosso blog! Mesmo os desafios, assim como as conquistas, certamente contribuem para o seu crescimento profissional e pessoal. Se você está pensando em embarcar nessa jornada, vá em frente! Você voltará com novas histórias, aprendizados e uma nova versão de si mesmo.

Tabela 1: Intercâmbio acadêmico. Tarefas, prós vs. contras e informações importantes. Tabela resumindo brevemente todas as etapas (com seus prós e contras) que envolvem um intercâmbio acadêmico, desde os primeiros passos no Brasil até o retorno, passando pela experiência internacional.
* “contras” que são totalmente evitáveis, a depender de diversos fatores como fase da vida, orientação e as diferenças naturais entre os indivíduos.
Etapa 📆Observações ⚠️Prós ✅Contras ❌
Planejamento mental, estrutural e financeiro 📑 ≥ 24 meses de antecedência. Guardar dinheiro Preparo e segurança para o intercâmbion Ansiedade e risco de decepção*
Escolha do destino, instituição e PI ✈️ ≥ 18 meses de antecedência. Lugares "tops": mais difíceis; PIs "tops": alunos orientam Alinhamento de expectativas e realidade Excesso de opções e deslumbramento*
Financiamento e bolsas 💰 Editais/notícias na universidade (BEPE / Print). Adiantar docs Estabilidade financeira e currículo Competição
Processo de candidatura 📝 Atenção as regras, requisitos, docs e prazos Amadurecimento e experiência Burocracia e prazos
Documentação e logística 💻 ≥ 1 ano de antecedência. Dependência de terceiros. Começar pelos demorados Autonomia e organização Rotina* e custos
Adaptação ao novo país 😄 Pesquisar sobre o destino e adiantar burocracias ≥ 6 meses antes (ex: moradia). Rotina Crescimento pessoal, rotina e resiliência Solidão*, saudade e choque cultural
Experiência científica 🎓 Foco, mas aberto a colaborações. Saia da zona de conforto (reuniões e eventos) Networking, metodologias, papers e eventos Novos processos* e pressão
Experiência cultural 🎉 Não tenha medo e se organize para ter lazer, mas mantendo o foco nos deveres Cultura, diversão e aprendizado Produtividade* e gastos extras
Retorno ao Brasil 🇧🇷 Auto-reflexão (sem arrependimentos; muitas histórias!) Transformação e impacto na vida Rotina e “choque reverso"

Checklist final: preparando as malas com tudo em dia!

☐ Preparação mental e estrutural (ex: família e chefe)
☐ Metas pessoais e profissionais (ex: país, universidade e laboratório)
☐ Leitura atenta do edital (ex: BEPE FAPESP ou Print CAPES)
☐ Proficiência na língua estrangeira (ex: TOEFL para Inglês)
☐ Passaporte válido
☐ Documentação extra (ex: projeto, carta de aceite e assinaturas)
☐ Visto de estudante válido (ex: J-1/DS-2019 ou F-1/I-20, taxas e entrevista)
☐ Organização financeira (moradia, alimentação, transporte e mais)
☐ Seguro saúde internaciona
☐ Estudo prévio dos hábitos e rotina loca
☐ Plano de estudo (ex: disciplinas na universidade ou atividades no lab
☐ Atividades extracurriculares (ex: cursos, reuniões e eventos
☐ Participação em eventos científicos (ex: voluntário) e culturais (ex: lazer
Boa viagem - e bons estudos!

Abreviações

COVID-19     Coronavirus Disease 2019
mRNA RNA mensageiro
EUA Estados Unidos da América
TOEFL Test of English as a Foreign Language
SEVIS Student and Exchange Visitor Information System
CASV Centro de Atendimento ao Solicitante de Visto
DF Distrito Federal (CASV Brasília)
SP São Paulo (CASV São Paulo)
RJ Rio de Janeiro (CASV Rio de Janeiro)
PE Pernambuco (CASV Recife)
RS Rio Grande do Sul (CASV Porto Alegre)
OH Ohio
UNIFESP Universidade Federal de São Paulo
CsF Ciência sem Fronteiras
IC Iniciação Científica
IIE Institute of International Education
ACS American Cancer Society
CCHMC Cincinnati Children’s Hospital Medical Center
UCSD University of California San Diego
BEPE Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior
FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
NASA National Aeronautics and Space Administration
CSHL Cold Spring Harbor Laboratory
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
PI Principal Investigator

DOS SANTOS, Filipe F. Intercâmbios: as vantagens educacionais, científicas e culturais sob a ótica das experiências de um estudante. Galantelab, 17 de abril de 2025. Disponível em: https://galantelab.github.io/blog/interc%C3%A2mbio/oportunidade/carreira/2025/04/17/intercambios-vantagens-de-um-estudante.html. Acesso em:

Filipe F. dos Santos

Filipe F. dos Santos Olá, apaixonados por ciência! Me formei em Ciências Biológicas (UNIFESP), seguido do Mestrado em Bioinformática (Ciências da Saúde) no Hospital Sírio-Libanês, orientado pelo Dr. Pedro A.F. Galante. Agora, sigo no Doutorado em Bioquímica e Biologia Molecular (USP). Tive a oportunidade de fazer uma graduação sanduíche em Bioinformática na University of Cincinnati (Ciência sem Fronteiras) e um intercâmbio de pesquisa na University of California San Diego (UCSD), ambas nos EUA. Amo estudar a genética molecular do câncer e de doenças infecciosas, usando dados OMICs, bioestatística e programação para desenvolver ferramentas e bancos de dados. Além do DNA e genes, também adoro jogar futebol, praticar esportes de areia e conviver com animais. Sejam bem-vindo(a)s!

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