O genoma em guerra: como vírus fósseis ligam o câncer e o envelhecimento
Quase metade do nosso código genético, antes considerado como “DNA lixo”, esconde uma história fascinante de luta e sobrevivência. No centro deste grande conjunto de sequências de DNA estão os Retrovírus Endógenos Humanos (HERVs), os quais são elementos remanescentes de infecções virais ancestrais que se integraram permanentemente ao nosso DNA (genoma).
Nossa revisão escrita pelo grupo e publicada recentemente na revista Mobile DNA (2025) (link para o trabalho completo) revelamos que o papel desses HERVs (“fósseis virais”) é muito mais complexo do que se imaginava, atuando como um elo entre dois dos maiores desafios da biologia moderna: o envelhecimento e o câncer.
O Despertar do Inimigo Adormecido
Em células jovens e saudáveis, os HERVs são mantidos em silêncio (isto é inativos biologicamente) por um rigoroso sistema de vigilância molecular (regulação epigenética). No entanto, à medida que envelhecemos, essa vigilância começa a falhar. O genoma se torna mais permissivo e esses elementos adormecidos (podem) despertar.
Esse despertar não é aleatório; ele é impulsionado pelo estresse celular, um fator comum tanto no processo de envelhecimento quanto no desenvolvimento de doenças crônicas. O resultado é a expressão descontrolada de sequências que há milhões de anos não deveriam estar ativas, como os HERVs.
A Dupla Face da Ativação Viral
O papel dos HERVs é marcado por uma dualidade funcional que representa um enigma evolutivo: eles podem ser tanto um mecanismo de defesa quanto uma arma potente para a progressão tumoral.
- HERVs: O Sistema de Alarme do Envelhecimento
Quando os HERVs são ativados em resposta ao estresse, eles produzem proteínas
e ácidos nucleicos que imitam uma infecção viral ativa.
- Vigilância Genômica: Essa ativação funciona como um sistema de alarme de emergência. O corpo interpreta o DNA da célula como “infectado”, o que pode forçar a célula ao envelhecimento celular (senescência) para interromper sua proliferação, ou ativar o sistema imunológico para eliminá-la. Isso representa uma defesa crucial, chamada mimetismo viral, que é conservada pela evolução.
- HERVs: Combustível para o Câncer
Em células que conseguem escapar da eliminação, o câncer é capaz de
sequestrar a expressão dos HERVs para sua própria sobrevivência e agressividade:
- Aceleração Tumoral: O câncer utiliza sequências de HERVs como “chaves de ignição” que ativam de forma anormal genes que promovem o crescimento (a chamada onco-exaptação).
- Plasticidade e Agressividade: A desregulação causada pelos HERVs contribui para a plasticidade fenotípica das células tumorais, permitindo que elas adquiram características mais agressivas e de difícil tratamento, como as vistas no melanoma e em outros cânceres.
- Inflamação Crônica: A ativação dos HERVs também pode levar à inflamação crônica no microambiente tumoral, um fator que se sabe ser um promotor do câncer associado ao envelhecimento.
A Ponte Terapêutica
Entender essa ligação entre HERVs, envelhecimento e câncer não é apenas um avanço conceitual; ele tem implicações diretas para a clínica:
- Biomarcadores do Tempo: A expressão de certos HERVs pode servir como um biomarcador não só para o risco de câncer, mas também para medir o estresse biológico e o envelhecimento de um indivíduo.
- Novas Estratégias para tratamentos baseados em Imunoterapias: A capacidade dos HERVs de induzir o mimetismo viral é uma ferramenta poderosa. Podemos desenvolver terapias que ativam seletivamente esses elementos nos tumores, transformando tumores “frios” (invisíveis ao sistema imune) em tumores “quentes”, prontos para serem atacados pelas células T ou para potencializar a eficácia de terapias já existentes, como os inibidores de checkpoint imunológico.
Portanto, nesta revisão, destacamos que os HERVs nos mostram que o nosso genoma não é estático e que mesmo sequências antes consideradas como “DNA lixo” apresentam diversas funções em condições normais e em patologias complexas como o câncer. Além disso, mostramos que os HERVs podem reagir ao estresse do tempo, e que essas reações podem ser a chave para desvendar as complexas relações entre envelhecimento, imunidade e a origem do câncer.
Referências
- ARANTES DOS SANTOS, G. et al. Endogenous retroviruses in aging and cancer: from genomic defense to oncogenic activation. Mob. DNA, v. 16, n. 1, p. 45, Dec. 2025.
D' ALESSANDRE, Nathália. O genoma em guerra: como vírus fósseis ligam o câncer e o envelhecimento. Galantelab, 9 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://galantelab.github.io/blog/c%C3%A2ncer/envelhecimento/herv/2026/02/09/genoma-em-guerra-virus-fosseis-cancer-e-envelhecimento.html. Acesso em:
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